Nem todos estão dispostos a buscar o sentido mais profundo das matérias que estudam, ou mesmo da realidade que os cerca.
É aí que está a importância das construções dogmáticas.
“…a construção dogmática está a serviço da resolução dos problemas que apresenta a realidade da vida social, tarefa que parecia já olvidada em favor da mera elucubração teórica.” – Cleber Masson (Direito Penal Esquematizado).
E é dentro desse contexto que entendo o papel das igrejas.
As igrejas tem seu importante papel exatamente no ensino da dogmática, magistério este que deve ser voltado para a “resolução dos problemas que apresenta a realidade da vida social, tarefa que já” parece olvidada, em favor da exacerbação do emocionalismo e valorização da ignorância, ou, por outro lado, “da mera elucubração teórica”.
Igreja não é lugar de elucubração de nenhum tipo. E isso sabe que conhece o ambiente das igrejas.
E isso ocorre porque nas igrejas entra quem quer. Em geral, as portas estão abertas ao povo, e, repetindo nosso raciocínio esboçado na primeira frase: Nem todos estão dispostos a buscar o sentido profundo da matéria que estudam, ou mesmo da realidade que os cerca.
Isso não é ruim. Sinceramente, acredito que cada um nasceu para ser o que é, e essa diversidade torna o planeta mais interessante, criativo e até mesmo divertido. A heterogeneidade quase sempre é um fator muito positivo.
As igrejas, a fim de que possam cumprir adequadamente suas funções, devem repassar o ensino bíblico com equilíbrio, atendendo à razoabilidade, sem valorizar a ignorância, e, apresentar soluções para a vida das pessoas. Deve combater a desagregação familiar, elevar a auto-estima dos indivíduos, tirá-los do vício, da criminalidade, e tudo isso, fundamentado no referencial teórico de uma boa teologia.
Acredito que a função da igreja está perfeitamente esboçada no pequeno texto abaixo:
“Mateus 10:
7 E, indo, pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus.
8 Curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça dai.”
Sendo coerente com a linha de exegese que adoto, qual seja, simbólica, e não literal, entendo o “pregai” significando a apresentação de boas novas espirituais, a fim de que o homem possa viver um novo tempo, uma nova jurisidição, digamos assim; “curai os enfermos”, representa sarar a alma, restaurar a psiquê daqueles que talvez nem saibam, mas sofrem de doenças emocionais, psicológicas algumas resolvidas simplesmente com uma correta e segura orientação; “ressuscitai os mortos”, significa trazer sentido para a existência daqueles que já desistiram da vida, renascimento para aqueles que são apenas corpos vagantes, à procura de uma alma; “limpai os leprosos”, para mim, representa tirar o estigma que a sociedade inflige a algumas classes que a compõe, e melhorar a autoestima daqueles que se entendem “leprosos”; “expulsai os demônios”, é o exorcismo daqueles males que de tão reais parecem demônios personificados; por último, já prevendo que tudo isso poderia gerar muita grana, Jesus passou a orientação mais desobedecida pelas agremiações religiosas: “de graça recebestes, de graça dai”.
Entendemos que as construções dogmáticas não são ruins em si mesmas, e muito menos inúteis. Acreditamos que elas dão sentido à vida de grande parte da humanidade, nos incluindo, trazendo até mesmo vida abundante para milhares de sujeitos.
Quem deseja aprofundamento nos estudos, deve seguir caminho semelhante ao trilhado nos ambientes acadêmicos seculares, ou seja, deve transcender a inicial graduação, a mercadológica especialização, o pedagógico mestrado, e chegar ao doutorado, onde realmente deveria ser o momento adequado para o aprofundamento e até mesmo a inovação.
Quem quiser se aprofundar em temas espirituais, não encontrará esse grau de estudo nas igrejas, pois lá é onde ocorre a graduação e, no máximo, a especialização. Para o mestrado, devem ser buscados os bons seminários (fuja dos conservadores), e para o doutorado, temos as escolas de mistério sérias e uma ampla gama de livros que exploram a espiritualidade sob um viés, a princípio, menos prático e menos literal do que os estudos iniciais.
Nem todos serão doutores, e o mundo certamente não será pior por isso.
cjc